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Reportagem

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Entre o céu e a terra

Nossa repórter participou de um ritual de daime-xamanismo e experimentou o chá que, segundo seguidores, tem o poder de livrar as pessoas da dependência química e curar quadros graves de depressão

Texto: Elisângela Orlando | Fotos: Alexandre C. Mota
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Ficaria durante séculos tentando traduzir em palavras o que senti naquele momento e ainda assim não conseguiria explicar a você, leitor, o que aconteceu comigo. Foi numa tar­de de domingo que tudo aconteceu. Concordei em participar de um ritual de xamanismo que faz a utilização da ahayuasca ou daime, como a bebida é mais conhecida, e, a partir daí, relatar tudo. O que eu não sabia, entretanto, é que essa seria uma tarefa muito mais difícil do que supunha.

Antes de contar minha experiência cabem algumas explicações. A ayahuasca, nome quéchua (língua indígena da América do Sul) que significa vinho das almas, é uma bebida sacramental utilizada há milênios pe­los povos pré-colombianos da Ama­zônia. Há registros de seu uso desde 2 mil anos a.C.  Também é chamada de yagé, hoasca ou vegetal. Ela é obtida do preparo e cocção do cipó banisteriopsis caapi (jagube) e do arbus­to psycothria viridis (chacrona). Seus adeptos defendem que, ao ser ingerida, a bebida induz a um estado ampliado de consciência, que permi­te ao usuário ver e sentir aquilo que ele normalmente não conseguiria no dia-a-dia.

Os bastidores desta matéria você confere no Blog da Redação.

Pessoas tomam ayahuasca em ritual de daime-xamanismo realizado pelo Instituto Xamânico Céu Guerreiros da Luz: uso dabebida em cerimônias religiosas fo

A partir dessa ampliação da consciência, a pessoa alcançaria nível de autoconhecimento capaz, inclusive, de transformar suas atitudes. Não é à toa que a ayahuasca também é chamada de planta professora. Estudos mostram ainda que muitas pessoas que fazem o uso correto do daime conseguem, inclusive, se libertar de vícios como as drogas – falarei mais sobre isso adiante.

Feitas essas considerações, posso continuar a contar o que se passou comigo naquela tarde. Che­guei disposta a participar do ritual e a não me deixar levar por pré-conceitos que costumamos ter diante do desconhecido. A celebração foi realizada pelo Instituto Xamânico Céu Guerreiros da Luz, em um sítio em Be­tim, região metropolitana de BH. Fui vestida conforme solicitado: saia lon­ga, abaixo dos joelhos, e blusa sem decotes, ambas de cores claras.  Ao chegar, fui recebida pelo padrinho (nome que recebe a pessoa que ministra o ritual) e por outros participantes. Em seguida, me de­ram uma ficha para que preenchesse com todos os meus dados, inclusive com informações médicas. De­pois, paguei uma taxa de 10 reais, valor que eles dizem ser simbólico e referente ao custo que o instituto xamânico tem para fornecer o misterioso líquido. 

Altar com imagens, flores e velas: sincretismo religioso é uma das características marcantes da celebração

Após, adentramos um salão co­mum, com cadeiras dispostas lado a lado e um corredor no meio. Nas paredes, era possível observar fotos e quadros referentes a diversos ícones de religiões diferentes, como Je­sus Cristo, Nossa Senhora da Con­ceição, Buda, entre outros. Havia ainda uma espécie de altar no fundo da sala que também expressava esse sincretismo religioso.

Sentei-me no lado esquerdo do salão, reservado às mulheres (homens e mulheres ficam separados durante o culto). O ritual começou com uma pequena palestra feita pelo padrinho, que falou um pouco sobre a ayahuasca e seus efeitos e a necessidade de cada um permanecer calado e quieto em seu lugar durante todo o culto, que teria duração de cinco horas. Termi­nada a palestra, o padrinho começou a servir o vinho das almas. A bebida é oferecida em copinhos de 50 ml. Cada pessoa toma duas porções e volta para seu lugar. Para meu paladar, a bebida tem gosto horrível (meu estômago embrulha só de lembrar). Amarga. Senti-me uma criança fazendo careta ao tomar algumas gotinhas de dipirona. Por causa do gosto nada agradável do daime, uma tigela com frutas fica disposta logo à frente para que a pessoa possa adocicar a boca.
 

Durante a cerimônia, homens e mulheres ficam separados

Voltei para a cadeira e fechei os olhos, conforme recomendação. Senti leve incômodo, mas nada demais. Achei que não passaria daquilo. Estava enganada. Em alguns minutos comecei a suar muito. Senti que meu corpo ficou diferente, meio dormente e comecei a ficar fraca. Não tive medo, mas não conseguia me manter ereta na cadeira. Queria descobrir o que  estava acontecendo comigo, apesar de todas aquelas sensações parecerem inexplicáveis.

Era apenas o início de uma lon­ga viagem. Não, caro leitor, ayahuasca não é droga e eu não esta­va tendo alucinações – pelo menos é o que dizem as pesquisas. Uma das substâncias que o chá contém é a dimetiltriptamina ou DMT. Mas a concentração mínima de DMT necessária pa­ra que uma bebida seja considerada droga ou cause alucinações deve ser superior a 2%. Na ayahuasca o percentual é de 0,02%, ou seja, 100 vezes menor do que a quantidade mínima.

O músico Lucas Avelar deu adeus às drogas após beber o daime

Como explicar, então, todas as sensações que se tem ao ingerir o daime? E a impressão de ver outro mundo mesmo estando com os olhos fechados? Concluí que se tratava de algo muito além da minha compreensão. A viagem era, sem dúvida, sobrenatural. Fisicamente, me senti debilitada e com muito frio. Mas, logo, uma das fiscais (pessoas que são preparadas e designadas pelo padrinho para auxiliar na realização do ritual) me conduziu a um colchonete para que eu me deitasse. Aquietei. Enquanto isso, músicas indígenas ou com temas religiosos tocavam durante todo o tempo. Em nenhum momento perdi a consciência de quem eu era e de onde estava. Muitas vezes, porém, tive vontade de ir embora, pois o enjoo que sentia era muito forte (sensação que só passaria no dia seguinte).

Poderia dizer o que vi, o que senti (sim, vi e senti inúmeras coisas), mas, conforme-se, amigo leitor: a experiência é individual. Isso significa que o que eu vi, ouvi e senti não é o mesmo que você veria, ouviria e sentiria. O que posso afirmar, com certeza, é que aquele experimento mexeu com meu íntimo e que o daime realmente leva a um estado de ampliação da consciência. Em muitos momentos durante o ritual tive ânsia de vômito e dor de barriga. Segundo os adeptos da crença, trata-se de um processo de limpeza do organismo e também espiritual. Isso não significa que todo mundo que ingere o líquido passa mal. Afinal, somos diferentes.

Participantes devem permanecer quietos e em silêncio durante o ritual

Asseguro, porém, que esse mal-estar físico em nada se compara com a sen­sação de bem-estar que vem depois. Sei apenas que, a partir das reflexões e sensações que tive naquelas cinco horas, saí disposta a rever uma série de conceitos na minha vida e, a a partir disso, tentar me tornar um ser humano melhor: mais solidário, mais paciente e, principalmente, mais consciente das minhas atitudes. Isso talvez explique por que muitas pessoas que começaram a fa­zer uso da ayahuasca abandonaram as drogas. Pesquisas recentes apontam que a bebida também se mostrou eficaz na recuperação de qua­dros graves de depressão. Um des­ses estudos foi realizado pelo departamento de Neurociências e Ciên­cias do Comportamento da Facul­da­de de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Exemplo disso foi o que aconteceu com a arquiteta Bethânia Fer­reira da Silva, 27. Ela ouviu falar na bebida pela primeira vez em 2006 e conta que, à época, passava por uma forte depressão e que seu refúgio eram as festas regadas a álcool e drogas. Foi quando o amigo de um amigo a convidou para ir a um ritual de daime. “Come­cei a enxergar quem eu era e o que estava fazendo nesse mundo. Per­cebi que diversão não é o mesmo que felicidade. A partir do momento em que comecei a encontrar respostas para minhas perguntas, mi­nha vida ganhou mais sentido”, comemora Bethânia que, em 2008, foi elevada à madrinha e, hoje, está à frente do Instituto Xamânico Céu Luz da Alma.   

Esse trabalho de recuperação de pessoas viciadas em drogas e de cu­ra de diversas doenças a partir do uso da ayahuasca tem sido realizado com mais empenho nos últimos anos pelo Instituto Espiritual Xa­mâ­ni­co Céu Nossa Senhora da Con­cei­ção (CNSC), localizado em Pari­que­ra-Açu, litoral sul do estado de São Paulo. O responsável pela obra é Emi­liano Dias Linhares, mais conhe­cido como Gideon dos Lakotas. De acordo com o presidente da Fede­ra­ção Mineira da Ayahuasca (Fe­may), Wellerson Abreu de Oliveira, que também é padrinho do Instituto Xamânico Céu Guerreiros da Luz,  a obra do CNSC tem por objetivo disseminar o correto uso do daime, retomando a finalidade original da bebida: permitir a ampliação da consciência e a busca do autoconhecimento a fim de que o ser humano dê vazão ao ser e não ao ter.

Oliveira explica que, durante muitos anos, outras correntes que também fazem uso do daime em rituais acabaram misturando a bebi­da sagrada com drogas como maconha e cocaína. Para mudar isso, entidades como a Femay, que também é ligada ao CNSC, estão sendo criadas a fim de divulgar os benefícios sociais, psicológicos e espirituais do uso da bebida. O resultado desse esforço já pode ser sentido. Com apenas cinco anos de funcionamento, o CNSC já conta com número expressivo de dependentes químicos recuperados (fala-se em mais de 11 mil) e mais de cem institutos parceiros espalhados no país. Em Belo Horizonte, são seis grupos aliados e outros quatro já estão em vias de começar a funcionar.

Quem conseguiu se livrar da dependência química a partir da primeira vez que tomou a ayahuasca foi o músico Lucas Avelar Gonçalves, 25 anos. Lucas conta que, há cinco anos, estava numa busca que, hoje, ele chama de ilusória. Fumava muito maconha e, não raro, também utilizava outras drogas. Um dia, a namorada da época lhe disse que ele precisava conhecer um local que havia mudado a vida dela. Um mês depois, o músico chegou ao Céu Nos­sa Senhora da Conceição para participar de um ritual. “Logo que tomei o chá, comecei a passar muito mal. Ao mesmo tem­po, me perguntava por que estava me sentindo daquela forma. Co­me­cei a ver o que estava errado em mim e a dar ouvidos ao eu superior que falava comigo e não ao meu ego. Foi quando senti que deveria parar de usar drogas. É como se fosse um trabalho de meditação acelerado”, revela.

A jornalista Elisângela Orlando bebe o chá durante ritual

Hoje, Lucas Avelar é padrinho do Céu do Caminho Sagrado e já teve a oportunidade de ajudar outras pessoas que estavam na mes­ma situação. É o caso do web designer Ramon Ramos Sepúlveda, 23. Assim como Lucas e Bethânia, Ramon diz que também estava levando uma vida de excessos quando foi convidado por um amigo para ir a um ritual de daime-xamanismo. Isso foi há três meses. Nesse meio tempo, entretanto, ele diz que muita coisa já mudou.  “Parei de beber e me sinto curado da depressão”, celebra.

Naquele domingo, um filme não parava de passar em minha cabeça e sentia-me invadida por uma sensação de paz absoluta ao deixar o sítio. Entendi que Shakespeare sabia o que falava quando afirmou que existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia...

Bebida é feita a partir da cocção do cipó jagube com folhas de chacrona

Saiba mais

- Entre 1991 e 1993, a Universidade Federal de São Paulo (antiga Escola Paulista de Medicina), de Campinas, do estado do Rio de Janeiro, do Amazonas, o Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA), a Universidade da Califórnia, de Miami, do Novo México e de Kuopio (Finlândia), foram convidados por iniciativa da União do Vegetal, para gerenciar uma pesquisa científica. Foram aplicados testes laboratoriais e questionários, dentro dos procedimentos científicos padrões, em usuários da ayahuasca. Eram pessoas de faixas etárias variadas, dos meios urbano e rural, frequentadores assíduos dos cultos

- Os testes também  foram executados em não-usuários, servindo de grupo de controle. A avaliação psiquiátrica conduzida pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Centro de Referência da Organização Mundial da Saúde, não encontrou entre os usuários nenhum caso de dependência, abuso ou perda social pelo uso da ayahuasca, aspectos presentes em usuários de drogas proscritas pela legislação

- As conclusões comparativas foram surpreendentes. A primeira delas, confirmando que a bebida é inócua do ponto de vista toxicológico: não se constatou “nenhuma diferença significante no sistema neurosensorial, circulatório, renal, respiratório, digestivo, endócrino entre os grupos experimentadores e de controle”

- Foi com o Santo Daime que a ayahuasca ficou um pouco mais conhecida, através de Raimundo Irineu Serra, fundador da religião. Seringueiro, Mestre Irineu como é conhecido por seus adeptos, viveu no estado do Acre, na localidade denominada Alto Santo. Ministrou rituais com a bebida até a sua morte, em 6 de julho de 1971, sem deixar sucessor, mas a doutrina manteve-se com seus seguidores

Bethânia Silva (de branco): “Percebi que diversão não é o mesmo que felicidade”

- Nas últimas décadas, com a expansão do uso ritualístico da ayahuasca para além das fronteiras da floresta amazônica, as doutrinas que fazem uso do chá ganharam mais adeptos em todo o Brasil, sendo elas: o Santo Daime, a União do Vegetal, a Barquinha e o daime-xamanismo

- Mais recentemente, foi enviado no dia 30 de abril de 2008 para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional pelo ex-ministro Gilberto Gil o pedido de reconhecimento do uso do chá ayahuasca em rituais religiosos como patrimônio imaterial da cultura brasileira, que está em trâmite

- Após 18 anos de estudos, em resolução publicada no Diário Oficial em 8 de novembro de 2004, o Conselho Nacional Antidrogas (Conad) retirou a ayahuasca da lista de substâncias entorpecentes, reconhecendo, juridicamente, a legitimidade do uso da bebida em rituais religiosos
 
- “O xamanismo ensina, desde os primórdios da nossa raça – rituais xamânicos sagrados datam, por constatações científicas, de 20 mil anos atrás –, que uma consciência perscruta nosso ser. Na verdade, o mais belo ensinamento é o de que nós somos esse ser, essa consciência. Além dela, o outro, o ego, a personificação do que decidimos encenar nesta encarnação, também chamado mente racional. Uma vez consciente de ambos, o horizonte se transforma, e podemos escolher qual lado alimentar. Baseado na integração e regido pelo universalismo, o xamanismo respeita tudo que existe e desvela o poder de cura através do espírito. Essa força, elemental e dos guias do planeta, torna o momento presente o mais precioso de todos.” (Texto de Lucas Avelar)

Fontes: Femay, Instituto Espiritual Xamânico Céu Nossa Senhora da Conceição, Céu do Caminho Sagrado, Céu Guerreiros da Luz, Céu Luz da Alma

Fonte do Site: http://www.revistaviverbrasil.com.br/materia_01.php?edicao_sessao_id=530 Acessado em: 04/11/2009 às 03:20hs.

 

 

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Irei postando mais, conforme for lendo e gostando de bons livros, ok??

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